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Victer: O Jovem Engenheiro e o Primeiro Rock in Rio

Publicado em: 05-08-2022

Me tira dessa! Coloca o engenheiro novo, cabeludo, que tem cara de gostar de Rock!!!”. Foi assim que em 1985, há cerca de 37 anos, e praticamente como engenheiro recém-formado, me sobrou o desafio improvável de coordenar a operação e a manutenção pela Concessionária de Energia Elétrica – Light de um Festival de Rock que eu sequer imaginava o que seria.

A Light era ainda uma empresa estatal e que eu havia ingressado em Concurso Público, em 1984, para o quadro de Engenheiros. Na ocasião, recebi a obrigação de montar uma pequena subestação de energia elétrica para abastecer um novo evento que surgia, que seria no meio do nada e que mal sabíamos a configuração e o comportamento da carga.

Confesso que na hora tremi e até hesitei em aceitar, pois, apesar de já fazer parte de um grupo que fazia manutenção de grandes subestações que ficava em um prédio histórico da LIGHT, na Rua Frei Caneca no Catumbi, nunca havia assumido sozinho a coordenação da operação de um evento, que se acontecesse algum problema, teria a repercussão imediata. Além disso, tinha pouco mais de 1 ano na empresa.

Montei uma equipe em que confiava com um encarregado experiente de nome Haroldo e começamos os procedimentos para supervisionar a montagem daquela subestação, que era móvel e que trouxemos em caminhão e era até pequena diante de outras que atuávamos. Os “peões”, como carinhosamente chamávamos os mecânicos e os eletricistas, adoravam estes desafios, pois ganhavam horas extras turbinadas por adicionais noturnos. Porém, os engenheiros mais antigos fugiam destas operações, pois não recebiam qualquer adicional e só recebiam folgas como compensação, razão pela qual herdei a responsabilidade dos mais seniores, de ser o “chefe” do “Primeiro Rock in Rio”!

Fui visitar o local onde seria o evento e me perdi! Na ocasião, não havia os modernos GPS, e a viagem foi feita em um fusquinha verde da empresa, de número serial 1434, que eu mesmo dirigia. Nunca esqueci dele. Carinhosamente o apelidava de “Trovão Verde”, em homenagem ao filme famoso da época “Trovão Azul”, um helicóptero de guerra, o que tornou a viagem ainda mais distante, já que naquela época, ar-condicionado e direção hidráulica só existiam em carros importados de bacanas.

Quando cheguei ao local pensei: “Esses caras são loucos!! Aqui não tem nada, só o barro batido”, que começava a ganhar forma inexplicável por máquinas de terraplanagem que pareciam combater entre si e geravam muita poeira!

Meu gosto musical estava mais para a Pop Music, tipo Elton John, mas os anos anteriores, com o hit “Show me the way” de Peter Frampton, me fizeram fazer com que os bailes de Hi-Fi que frequentava de camisa Hang Ten, carrapetados pelo saudoso Disk Jockey Big Boy, no Clube Jequiá, na minha gloriosa Ilha do Governador, tivesse encarnado naquele jovem engenheiro uma obrigação e a responsabilidade de ficar a frente do evento como se eu fosse o mais importante artista!

Na primeira reunião com o pessoal da organização do evento confesso que assustei os caras que não acreditavam que aquele menino, na ocasião, magro, cabeludo e sem barba estaria assumindo uma responsabilidade que podia literalmente levar as trevas o evento! Para reduzir a tensão, os levei para conhecerem nossos escritórios associados, oficinas e algumas unidades de subestação rurais que tínhamos na Estrada dos Bandeirantes, próximo ao local.

É óbvio que tremia de medo! Os engenheiros mais seniores com quem eu convivia na Light, Luiz Antônio Machado, José Manoel Carneiro e José Paulo Sarmento, ao mesmo tempo que me tranquilizavam naquela primeira experiência, me davam dezenas de recomendações de postura! Aliás, o Engenheiro Sarmento, o gordinho, trabalha até hoje comigo e, obviamente, desconto sempre os merecidos esporros que levei, mas que serve de testemunha viva dessa faina que vivenciei.

Chegou o grande dia! Fui bem cedo ao local com minha equipe! Comemos sanduíches que nos eram dados pela organização ou marmitas requentadas em papel alumínio, e inclusive provei uma nova cerveja que praticamente era lançada no evento, de nome Malt 90. Ela vinha resfriada em caminhões criogênicos especiais, o que fez com que a tradicional soneca que tirávamos na hora do almoço fosse um pouco mais longa! Isso mesmo, tínhamos o hábito salutar de tirar um cochilo na hora do almoço e desde cedo aprendi a acompanhar a peãozada na soneca. Era salutar a forma de integração com a equipe! Dormíamos no carro ou embaixo de qualquer sombra com um papelão sempre disponível em todo veículo de manutenção como sendo um apetrecho fundamental de equipe!

Sentia-me realizado! Com a operação correndo bem eu já podia rodar os diversos ambientes com o crachá tipo “License to Kill” recebido da organização que com ele acessava todos os ambientes do planeta. Logicamente, eu o fazia devidamente paramentado com meu capacete branco, preso pela jugular e devidamente identificado pela marca da Light, com meu nome colocado com adesivos que vendiam em papelaria, botas e um volumoso jaleco (Guarda Pó) azul, só permitido a ser usado pelos Engenheiros. Além de um vistoso “Bip” que era aparelho antecessor ao celular para avisar a existência de mensagens em uma central. O equipamento era muito utilizado por médicos na ocasião, mas que me conferia um caráter bastante profissional. Aquilo para mim era “onda pura”, pois aumentava a minha autoestima, em especial com aquele público juvenil feminino que fervilhava no evento e que catapultava meus hormônios de quase adolescente orgulhoso em ostentar tão jovem o nome Engenheiro no crachá que recebi da organização.

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Em todos os dias do evento a operação foi um sucesso, ao ponto de, cada vez mais, permitir minhas “rodadas” no ambiente e me tornando cada vez mais conhecido, apesar das olheiras não recuperadas pelas poucas horas de sono que tirava em um motel (Dunas) na Barra da Tijuca, em que me foi oferecido pela organização do evento e que, aliás, existe até hoje. Como convivi mais de um mês morando lá, virei muito íntimo do pessoal da portaria, garçons, camareiras e ganhei gratuidades para usos no pós evento onde eu chegava meses mais tarde como se fosse um Pop Star e o maior garanhão e até chamado intimamente pelo nome, pelo ambiente da alcova.

Como retribuição àquela dedicação, a organização do evento me ofereceu também alguns convites do Rock in Rio e pude na ocasião, me descaracterizando de Engenheiro, levar uma namorada que tinha à época para assistir ao show antológico de James Taylor e curtir uma chuvarada amenizada pelas belas capas de chuva amarelas da Light que existiam em nosso suporte de manutenção, enquanto a maioria do público improvisava capas com sacos de lixo que surgiam para ser comercializados sabe lá vindo de onde!

A única tensão que tive se passou, quando já me considerava totalmente ambientado, pois resolvi assistir o show do Ozzy Osbourne, me posicionando em cima do palco na sua lateral como se fosse membro da sua equipe de “Rock Pauleira”! O show transcorria daquela forma tradicional do grupo, que assustava qualquer neófito diante daquelas performances que envolveu até um morcego e de repente a fiação de alimentação do sistema de iluminação de palco começou a pegar fogo. Alguns membros da plateia me identificaram e começaram a gritar “olha o cara da Light! Pega!” Não pensei duas vezes e saí correndo escondendo em uma mesa atrás do palco meu capacete e o vistoso jaleco azul até porque diziam as “lendas” aconteciam “performances macabras” no palco e na plateia e não quis me transformar naquele morcego tupiniquim a ser devorado em sacrifício, até porque nosso limite de trabalho pela empresa se limitava até a saída da subestação e a alimentação interna cabia ao evento e sabia que se o caos viesse tais explicações soariam como piada para o público todo vestido de camisas pretas que estava totalmente ensandecido com o show.

Digo sem sombra de dúvida! O Rock in Rio teve real importância na minha carreira como Engenheiro! E costumo dar esse exemplo que muitas oportunidades que nos surgem não devem ser temidas e sim serem transformadas em um desafio o que pode até ajudar forjar um novo profissional.

Entrei no evento, um jovem assustado, confesso que sem experiência mesmo para assumir o desafio e saí me sentindo um gigante e devo isso a meus amigos que acreditaram em mim e a organização do Rock in Rio a época que tinha até o jovem empresário Medina, hoje ainda a frente do megaevento com sua filha, que já ganhou o mundo.

Portanto sempre falo para alunos e também em palestras para jovens que são os momentos críticos que viram oportunidades especiais, que eventualmente surgem como forma de desafios temporais que se consegue trazer a grande experiência e forjar a personalidade de um profissional.

Tive ao longo dos meus mais de 35 anos como Engenheiro e como gestor público muitas vezes desafios profissionais que me foram trazidos frutos de oportunidades até de tragédias e a forma com que pude enfrentá-los foi onde obtive o meu maior aprendizado, muito mais que as atividades rotineiras ou aprendizados em bancos escolares de Universidades de ponta do Exterior.

Desde aquela época, voltei a todas as edições do Rock in Rio e até em funções que me davam novas obrigações e responsabilidade como Secretário de Estado de Energia, Presidente da CEDAE e até como Secretário de Educação, levando jovens, mas nunca esqueço desse primeiro Rock in Rio, onde fui como garoto, o “engenheiro chefe” de uma das principais operações. Não sei se este ano irei, mas esse passado para mim é importante e o trouxe nessa crônica, quase de um Forrest Gump, mas que infelizmente não pude registrar pela falta das modernas câmeras, celulares e artistas com quem convivi e certamente teria selfies históricas.

Portanto, Jovem Profissional, busque enfrentar seus desafios!! Nunca fuja deles e procure desafios para se desenvolver, pois com eles você terá um aprendizado que marcará além da sua vida profissional, também o seu caráter.

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